SCF – Rome Fell and It’s Probably Your Fault

Original Article: https://www.strategic-culture.org/news/2021/09/24/rome-fell-and-its-probably-your-fault/

Strategic Culture Foundation

Rome Fell and It’s Probably Your Fault

Roma Caiu, e Provavelmente Por Culpa Sua

Patrick Armstrong

September 24, 2021

© Photo: Flickr/Larry Koester

A próxima vez que você ler alguém pontificando que o Império Romano caiu porque fez algo que esse alguém não aprova, simplesmente sorria.

O Império Romano caiu porque fez algo que o autor não aprova. E o Império Estadunidense ou a Rússia de Putin ou a China comunista cairão porque também farão algo que o autor não gosta. É um trope(*) curioso que aparece o tempo todo. É fácil de fazer e permite que o autor finja ser aquele sujeito dotado de munta/sóleda curtura que consegue usar Pompeia, Plutão e Platão na mesma sentença em vez de hack(**) a repalavrear as últimas instruções do Complexo Militar-Industrial-Midiático. Agora que o Império Estadunidense foi derrotado por seus aliados no caso do Nord Stream e por seus inimigos no Afeganistão, podemos esperar muito mais desse tipo de coisa.

(*) trope – Algo tal como ideia, frase ou imagem usada com frequência na obra de determinado artista, em determinado tipo de arte etc. ‘Robôs com forma humana são um trope clássico na ficção científica.’ Cambridge

(**) hack – Escritor ou jornalista que produz obra desinteressante/enfadonha e sem originalidade. Lexico powered by Oxford

Quando, porém, foi exatamente que o Império Romano acabou? Precisamos de uma data para podermos pôr a culpa daquele término naquela coisa da qual não gostamos(*). Edward Gibbon escreveu livro bastante volumoso acerca do declínio e queda: começa nos anos 200 e termina nos 1400. São 1200 anos de declínio e queda; difícil achar causa única em tudo isso.

(*) Não necessariamente. Há pessoas que acham que a Revolução de 1964 no Brasil acabou, e atribuem a culpa a isto ou a aquilo, embora a data aparentemente seja segredo, pois, que eu saiba, não foi decretado feriado nacional nem há comemorações ou qualquer tipo de celebração do dia. Digo, o dia do término, não do começo. N. do T.

O fim da República Romana – esse é mais fácil de datar. A maior parte das pessoas concordaria com a data ser aquela em que Gaius Julius Caesar Octavianus tornou-se supremo depois da derrota de Antônio e Cleópatra em 30 AC. Até isso, porém, revela-se nebuloso quando levamos em consideração o faz-de-conta romano de que Roma não muda nunca, mesmo quando estava mudando. E a questão torna-se ainda mais complicada por causa da afeição dos romanos pela áurea antiguidade, o que significa que eles nunca paravam de fazer o que tinham feito uma vez. Daí a tradição sacerdotal dos flamines(*) com suas curiosas vestes e tabus; os Sibylline Books [Livros Sibilinos], perdidos mas depois restaurados, eram consultados até no período cristão; honravam/homenageavam gansos e puniam cãeso fogo sagrado era mantido aceso; o arriamento da bandeira fazia cessar o julgamento. Portanto, por mais cataclísmica a crise, ao final a República era novamente “restaurada” do jeito que era antes. E isso é o que Octavianus afirmava ter feito – cônsules, o Senado, pretores e todo o resto permaneceram mas ele, agora chamado o Augusto Um, era simplesmente o primeiro homem em Roma. Havia restaurado a República. E veremos isso o tempo todo: o que quer que aconteça, nada aconteceu; o faz-de-conta é mantido.

(*) flamines – Plural de flamen. Flamen é sacerdote romano dedicado à adoração de um único deus/de deus específico. Wikipedia, Lexico

410. Essa é a data em que terminou. Os visigodos, comandados por Alarico, saqueiam Roma. Mas Roma não é a capital do Império à época, nem mesmo do Império do Ocidente. E Alarico, que havia sido soldado romano, é visto por muitos como tendo buscado sem sucesso posição formal dentro do Império. Mas a data é significativa porque, entre os historiadores de fala inglesa, é provavelmente a origem da noção de que “o Império Romano caiu” em algum momento definível. A Britânia romana parece ter sido, de modo geral, próspera e pacífica (com alguma fricção ao norte da Muralha) durante três séculos, até meado anos 300 quando invasores marítimos e habitantes do norte conjugaram-se para abalar sua segurança; um general então levou muitos soldados para o continente em malsucedida tentativa de tomar a coroa e os últimos soldados partiram no início dos anos 400 para defender Roma. Isso tudo deixou os britânicos romanizados (e cristianizados) à mercê dos invasores. Pouco a não ser lendas sobrevive dessa época; é a época de Arthur: mas estava em Cornwall/na Cornuália ou nas Fronteiras? será que ele sequer existiu? era ele romano, Briton(*) ou sarmácio? rei ou líder guerreiro? As bibliotecas estão cheias de livros de especulação; ninguém sabe e a arqueologia não ajuda. Gradualmente os Britons foram expulsos/empurrados para fora e os saxões estabeleceram-se naquilo que hoje é chamado de “Inglaterra”. A história registrada recomeça nos anos 700 quando os saxões são cristianizados. Assim, na Britânia romana, certamente há uma “queda” no início dos anos 400, seguida da uma idade “escura” de três séculos, seguida de gradual aumento de “luz” enquanto os saxões cristãos lutam com nova rodada de invasores pagãos vindos do mar. Então o Império Romano realmente “acaba”. Mas não por qualquer razão moralista – as legiões saíram, e a Britânia era alvo suculento.

(*) Briton – Habitante celta do sul da Britânia antes e durante a época romana. Lexico

A história do Continente é bastante diferente. Bárbaros, sim, mas sempre fingindo governar por permissão do Imperador do Oriente e buscando título de estilo romano. As pesquisas de Henri Pirenne deixam isso claro. Tomemos, por exemplo, outra “data final” – 478. O último Imperador do Ocidente, Romulus Augustulus (nome que ironicamente combina os fundadores da República de Roma e da Roma imperial) é derrubado pelo bárbaro Odoacro. Mas Odoacro tem o cuidado de procurar autoridade para governar oriunda do Imperador em Constantinopla, e de consultar o Senado Romano. Assim, o faz-de-conta do Império Romano imutável é mantido. E assim vai – rei bárbaro, ex-soldado do Império, toma o poder e o Imperador do Oriente o nomeia para alguma posição/cargo romano e ele será rei de seu povo e oficial do Império. Mário é Cônsul sete vezes, Sula nomeia-se Ditador, César torna-se Ditador vitalício: tudo é perfeitamente romano e de acordo com as Doze Tábuas. Com pequena torção das regras. Que agora se tornam as novas regras.

Obviamente é fingimento e obviamente cada iteração é uma cópia borrada/turva da anterior. Mas é processo contínuo e não é possível achar – exceto mediante tomar alguma decisão arbitrária – determinado momento em que uma coisa acaba e outra começa. Momento importante na Europa Ocidental ocorre quando Carlos Magno declara-se Imperador do Ocidente. Coroado pelo Bispo de Roma sem referência ao Imperador do Oriente. É uma cisão; mas toda feita em latim, toda cristã, e no entanto requer para si própria o nome de Império Romano chefiado pelo Imperator Romanorum. Carlos Magno inclusive referia-se a si próprio ocasionalmente como Augustus/Augusto e afirmava ter renovado o Império. Então o ano 800 registra um momento sem dúvida, mas há ainda algo no Ocidente a chamar-se de Império Romano e não é inteiramente fantasioso fazê-lo.

O Sacro Império Romano existiu até 1806. Isso significa extensão de mil anos desde quando Carlos Magno o criou e, em 1806 certamente César Augusto não reconheceria nele nada – mas quanto teria reconhecido na Constantinopla do ano 600? Certamente em algum momento desses mil anos o Império Romano (do Ocidente) cessou de ter qualquer conteúdo além do nome. Ninguém, porém, consegue encontrar um “momento”: ele simplesmente foi esmaecendo ao longo do tempo até não sobrar nada a não ser o nome e Bonaparte – logo ao fazer-se imperador apesar de em cerimônia fortemente reminiscente de Roma e Carlos Magnos – soprou o último grão de poeira dele.

Entrementes, o Império do Oriente continuou. Seu domínio sobre o Império do Ocidente waxed and waned(*) mas aí pelos anos 800 havia desaparecido em forma e em realidade (embora tenha mantido Veneza). Mas certamente permaneceu no Oriente; rico e poderoso. O que acabou com ele foi o século de guerra destrutiva com o Império Persa a partir do início dos anos 500, o qual enfraqueceu tanto os dois que eles se tornaram incapazes de resistir aos muçulmanos. Ao chegarem os meados dos anos 700, o islã dominava a África romana, o Egito, a Espanha, a maior parte do Oriente Médio atual e o próprio Império Persa. O Império Romano do Oriente foi deixado com os Bálcãs e Anatólia. Nos sete séculos subsequentes o islã, que nunca deixou de desejar governar “A Cidade“, açambarcou mais e mais até que o Império ficou reduzido aos limites da própria cidade e, quando ela caiu em 1453, foi o fim. E aquela foi a data que Gibbon escolheu.

(*) waxed and waned – Passado de wax and wane, que significa passar por alternância de aumentos e diminuições. ‘Percebo que minha inspiração tende a wax and wane ao longo do tempo e, acordemente, minha capacidade de escrever.’ Lexico

Então, quando foi que o Império Romano “caiu”? Não há qualquer data – a menos que escolhamos 1806 ou 1453 – e portanto não há qualquer “causa”.

Portanto, da próxima vez – e vai acontecer logo – que você ler alguém pontificando que o Império Romano caiu por causa de algo que ele não aprova e que os Estados Unidos – US/U.S./USA ou Rússia ou China também estão fazendo a mesma coisa – sorria. É só flatus vocis e superficialidade.

(A queda da República, por outro lado, pode ser entendida como a incapacidade de cidade-estado de pequenas dimensões de lidar com império em expansão, a tensão pela necessidade de grandes forças armadas e guarnições no exterior, ganância e ambição alimentadas pelo aporte de enorme quantidade de pilhagem, o empobrecimento de muitos cidadãos comuns. Não é frequente ver essa comparação, mas eis aqui uma: Donald Trump como Tibério Graco; o “careteiro” desdenha do examinador– bem, é o New York Times – NYT(*). Tudo o que posso dizer é que há certo paralelo, e esperemos até que ele se veja diante de Catilina e Clódio!)

(*) https://www.youtube.com/watch?v=iVOeZMgFjf4

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