RT – The uncounted Gaza victims: Why hundreds of thousands are being allowed to die

Original: https://www.rt.com/news/601544-uncounted-gaza-victims-israel/

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No início deste mês a revista Lancet publicou artigo que estimava que o número total de mortes de civis palestinos causadas direta e indiretamente pelos ataques israelenses desde outubro de 2023 poderia ser quase cinco vezes superior ao número oficial de mortos, podendo atingir “até 186 000 ou mesmo mais”.

O relato observa que “isso corresponde a 7,9% da população total da Faixa de Gaza”.

De acordo com o artigo a última contagem disponível de palestinos mortos – 37.396 – é demasiado baixa, com base no fato de ainda se desconhecer quantos mais se encontram sob os escombros, quantos estão desaparecidos mas não contabilizados entre os mortos, e quantos perecerão devido à fome, desidratação ou doenças.

Mesmo que o conflito termine imediatamente, continuará a haver muitas mortes indiretas nos próximos meses e anos, em razão de causas como doenças dos órgãos de reprodução, doenças transmissíveis e doenças não transmissíveis”, salientou.

No entanto mesmo essa estimativa da Lancet de quase 200.000 mortos pode ser apenas metade do número real de palestinos mortos, de acordo com alguns cômputos.

O Dr. Mads Gilbert, norueguês que tem trabalhado extensivamente a partir de Gaza ao longo dos anos – especialmente durante os períodos em que Israel travava guerras contra o enclave palestino – descreveu recentemente as múltiplas condições evitáveis que contribuem para essas mortes “indiretas”, estimando que o número de mortos ou prestes a morrer poderá ser superior a 500.000.

Como causas de morte indireta detalha “a falta de entrada de alimentos em Gaza e a destruição da agricultura, dos pesqueiros, das aves de capoeira, das fazendas de laticínios, etc. A falta de água, que leva a desidratação e infecções”.

A terceira componente do “triângulo da morte” são as doenças comuns, observa Gilbert. “Em Gaza há talvez 10.000 ou mais doentes de câncer. O exército israelense bombardeou o hospital de Rantisi para crianças com câncer e o hospital da amizade turca para doentes adultos com câncer. Não permite a entrada de medicamentos contra o câncer”.

Mais de 1,2 milhão de pessoas, segundo ele, está a ser infectado por causa de más condições de higiene.

Gilbert salienta que com as elevadas temperaturas que se fazem sentir atualmente em Gaza o lixo não recolhido, as bombas de esgotos destruídas e a consequente inundação das ruas com esgotos em bruto “criam gravíssima situação por causa de parasitas que podem propagar doenças”.

Depois há as mulheres grávidas que dão à luz em condições insalubres, com o corpo enfraquecido pela fome. Ele calcula que mais de 50.000 crianças nasceram em Gaza desde 7 de outubro de 2023, acrescentando que “todas aquelas mulheres precisam de água potável e de boa alimentação para poderem cuidar dos seus filhos. Há enorme sobremortalidade entre as mulheres grávidas que têm partos difíceis, que precisam de cesarianas”.

Os quase 40.000 mortos já são número aterrador, mas as estimativas recentes são absolutamente de horrorizar.

Fome e doenças planejadas

Tendo vivido três anos em Gaza (entre o final de 2008 e o início de 2013), vi (e vivi) a brutalidade do cerco israelense, os graves cortes de energia (16-22 horas por dia quando lá vivi) depois de Israel ter destruído a única central elétrica e a forma como esses cortes de energia afetaram os hospitais (diálise e funcionamento das urgências; incubadoras; refrigeração para medicamentos, etc.).

As falhas de energia afetaram a capacidade de tratar os esgotos ou, pelo menos, de os bombear para o mar. Quando os esgotos se acumulam em excesso transbordam para as ruas (incluindo pelo menos um caso horrível em que cinco civis afogaram-se numa aldeia do norte de Gaza quando os esgotos transbordaram).

O próprio confinamento imposto por Israel restringe severamente o que é permitido entrar em Gaza, inclusive medicamentos, gás de cozinha, combustível, produtos alimentares, gado, sementes, fertilizantes e muito mais. Da mesma forma, limita severamente as exportações, contribuindo para a destruição da economia.

Como escrevi há alguns anos, os cortes de eletricidade, a escassez de combustível e de gás de cozinha, a dramática insegurança alimentar, o atraso no crescimento das crianças, 50% de desemprego e 96% de água não potável são a realidade de Gaza há anos.

De fato, já em 2008 escrevi (a partir de Gaza) sobre a escassez de ajuda alimentar permitida no enclave:

“Os números da ONU revelam que foi permitida a entrada de média de menos de cinco caminhões por dia, em comparação com 123 em outubro e 475 em maio do ano passado. Em 27 de novembro a ONU anunciou que tinham-se esgotado seus suprimentos de alimentos e bens essenciais em Gaza”.

Àquela altura já havia escassez drástica de “300 tipos diferentes de medicamentos, 95 dos quais (inclusive medicamentos para câncer) já não estão disponíveis em Gaza”. 220 máquinas utilizadas para diálise e outros procedimentos vitais, como tomografias, não estavam operacionais.

Do mesmo modo os implacáveis ataques israelenses contra agricultores e pescadores palestinos, mortos e mutilados com balas e obuses, rapto de pescadores e roubo de seus barcos, duram há mais de uma década e meia, o que tem impacto grave na capacidade dos palestinos de cultivarem ou apanharem os seus próprios alimentos.

Outras táticas do exército israelense incluem a queima de culturas palestinas, o corte ou destruição de oliveiras e a demolição de quintas nas regiões fronteiriças. O governo israelense chegou ao ponto de calcular o número mínimo de calorias necessárias para que os palestinos não entrem em estado de inanição.

Em 2010 escrevi acerca da destruição sistemática de poços e cisternas por Israel, de sudeste a norte, visitando agricultores e testemunhando a destruição. Muitos recorreram à tentativa de irrigar as suas terras através de carroças de burro com jarros de água. Há mais de uma década que 95% da água do único aquífero de Gaza é imprópria para consumo humano.

Se juntarmos as numerosas guerras israelenses em Gaza ao cerco implacável, podemos ver como Israel preparou há muito tempo o terreno para o aparecimento de doenças crônicas, crescimento atrofiado, anemia e muitas outras doenças e aflições – muito antes de 7 de outubro de 2023.

Recorde-se que, em outubro, o Ministro da Defesa israelense, Yoav Gallant, declarou: “Ordenei um cerco total à Faixa de Gaza. Não haverá eletricidade, nem comida, nem combustível, está tudo fechado. Estamos a lutar contra animais humanos e estamos a agir em conformidade”.

Recorde-se também que as forças israelenses dispararam repetidamente contra palestinos famintos que faziam fila para receber a escassa ajuda alimentar que entrava em Gaza, tendo o pior massacre ocorrido em fevereiro, matando pelo menos 115 civis e ferindo mais de 750.

Alguns meses antes do aviso da Lancet, em março, Ralph Nader questionou igualmente o que ele acreditava ser grave subcômputo dos palestinos mortos em Gaza, escrevendo: “Com base nos relatos das pessoas no terreno/local, nos vídeos e fotografias de episódio mortífero atrás de episódio mortífero, mais as mortes resultantes do bloqueio ou destruição de bens essenciais à vida, estimativa mais provável, na minha opinião, é que pelo menos 200.000 palestinianos já devam ter morrido e o número de mortos está a aumentar a cada hora que passa.”

Mais recentemente o Dr. Ahmad Yousaf, médico da Med Global que está a trabalhar em Deir al-Balah, no centro de Gaza, disse numa entrevista:

“Esta UTI está cheia de doentes diabéticos que têm doença muito tratável, mas que estão a morrer da coisa mais simples: porque a insulina não está disponível, porque não há autorização para trazê-la, e a refrigeração acabou. Tal como há muitos amputados por causa de traumatismos, há amputados por causa de diabetes não controlada.

“Os números são muito mais elevados, diria facilmente que são quatro, cinco, seis vezes mais elevados. Já para não falar dos que morrerão nas décadas seguintes, por causa do trauma psiquiátrico e das incapacitações físicas associadas ao que aconteceu nos últimos nove meses.”

As ‘zonas seguras’ não são seguras

Os palestinos torturados até à morte nas prisões israelenses também devem ser incluídos na contagem “indireta” de mortes, uma vez que Israel raptou mais de 4.000 palestinos de Gaza, inclusive crianças, jornalistas, médicos e mulheres (isso além dos cerca de 10.000 palestinos que não pertencem a Gaza detidos por Israel).

Praticamente nenhuma cobertura na mídia canadense e escassa cobertura nos EUA. De fato, o título do New York Times elimina, sem surpresa, Israel como a razão por detrás das mortes, com o seu “Fighting Isn’t the Only Killer of Gazans Amid the War, Researchers Say” {Pesquisadores Dizem que a Luta Não é o Único Fator de Morte em Gaza em Meio à Guerra}, e, de resto, desresponsabiliza Israel pela fome que deliberadamente causou em Gaza.

Vale sempre a pena chamar a atenção para a hipocrisia da imprensa ocidental e para as reações dos líderes de opinião quando é Israel a cometer atrocidades, em comparação com quando o Ocidente afirma que a Síria, a Rússia ou outro estado alegadamente fizeram algo semelhante. Entretanto, Israel continua a massacrar palestinos em supostas “zonas seguras”, particularmente no recente bombardeio repetido do campo de refugiados de al-Masawi (com pelo menos 1,5 milhão de palestinos desalojados), matando pelo menos 71 civis e ferindo quase 300. Alguns dias depois Israel voltou a bombardear aquele mesmo campo.

É espantoso que essa chacina de civis palestinos continue, com algum hand wringing* e condenações leves. Como escreveu Ralph Nader, “É muito importante comprovar que o número total de mortos até agora, e que continua aumentar, é três, quatro, cinco, seis vezes maior. É importante para conscientizar as pessoas da urgência de cessar-fogo permanente.”

These translations are provided for reader relevance and may not necessarily align with the author’s own views or beliefs.

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