RT – Chris Hedges: We Americans kill with an inchoate fury. The evil we do is the evil we get

https://www.rt.com/op-ed/534562-al-qaeda-americans-terrorism/

RT

Chris Hedges: We Americans kill with an inchoate fury. The evil we do is the evil we get

Chris Hedges: Nós estadunidenses matamos com fúria cega. O mal que fazemos é o mal que recebemos

11 Sep, 2021

FILE PHOTO: Firemen work around the World Trade Center after both towers collapsed in New York, US, September 11, 2001. © REUTERS/Peter Morgan

Chris Hedges is a Pulitzer Prize-winning journalist and host of RT’s On Contact, a weekly interview series on US foreign policy, economic realities and civil liberties in American society. He’s the author of 14 books, including several New York Times best-sellers.

Os sequestradores que levaram a efeito os ataques do 11/9, como todos os grupos radicais jihadistas do Oriente Médio, falaram a nós na linguagem assassina que lhes ensinamos. 

Eu estava na Times Square em New York City pouco depois de o segundo avião ter guinado e arremetido contra a South Tower [Torre Sul]. A multidão que olhava o Jumbotron(*) arfou, em desalento, vendo a fumaça preta que se avolumava e a bola de fogo que irrompia da torre. Não houve questionamento quanto a os dois ataques às Twin Towers [Torres Gêmeas] terem sido atos de terrorismo. A suposição anterior, a de que talvez o piloto tivesse tido ataque cardíaco, ou perdido o controle do avião ao este colidir com a North Tower [Torre Norte] dezessete minutos antes, desvaneceu-se com o segundo ataque. A cidade caiu em estado coletivo de choque. Medo pulsava ao longo das ruas. Atacariam de novo? Onde? Estará minha família a salvo? Devo ir ao trabalho? Devo ir para casa? O que significou isso? Quem faria isso? Por quê?

(*) Jumbotron – Tela muito grande de vídeo de tipo usado em lugares tais como estádios. Lexico powered by Oxford

As explosões e o colapso das torres, porém, foram, para mim, como velhos conhecidos. Eu já tinha visto aquilo antes. Era a linguagem bem conhecida do império. Eu já havia visto aquelas mensagens incendiárias despejadas no sul do Cueite e no Iraque durante a primeira Guerra do Golfo Pérsico e desabando com trovejantes concussões em Gaza e Bósnia. O cartão de visita do império, como também foi verdade no Vietnã, é toneladas de material bélico letal despejado a partir do céu. Os sequestradores falaram aos Estados Unidos na língua que ensinamos a eles.

A ignorância, mascarada de inocência, dos estadunidenses, especialmente estadunidenses brancos, era nauseante. Era o pior ataque em solo estadunidense desde Pearl Harbor. Era o maior ato de terrorismo da história estadundense. Era incompreensível ato de barbárie. A retórica espantosamente ingênua, que saturou a mídia, viu o artista de blues Willie King passar a noite inteira escrevendo sua canção “Terrorized”.[Aterrorizado](*)

[Youtube] https://www.youtube.com/watch?v=piFH6asPTlA

“Agora vocês falam a respeito de terror,” cantou ele. “Eu venho vivendo aterrorizado todos os meus dias.”

Não eram porém apenas os Estadunidenses Pretos que estavam familiarizados com o terror endêmico embutido no maquinário da supremacia branca, do capitalismo e do império, mas também aqueles, no exterior, que o império, por décadas, procurou subjugar, dominar e destruir. Eles sabiam que não havia diferença moral entre aqueles que lançavam mísseis Hellfire e cruise ou drones(*) pilotos militarizados, obliterating(**) festas de casamento, reuniões de vilas ou de famílias, e homens-bombas suicidas.

(*) https://pt.wikipedia.org/wiki/Veículo_aéreo_não_tripulado

(**) obliterating – To obliterate significa destruir completamente, varrer da existência. Lexico / Não confundir com ‘obliterar’ em português, N. do T.

Sabiam que não havia diferença moral entre aqueles que atapetavam de bombas o Vietnã do Norte ou o sul do Iraque e aqueles que lançavam aviões contra edifícios. Em suma, conheciam o mal que fazia proliferar o mal. Os Estados Unidos foram atacados não porque os sequestradores nos odiassem por causa de nossos valores. Os Estados Unidos não foram atacados por os sequestradores seguirem o Corão – que proíbe o suicídio e o assassínio de mulheres e crianças. Os Estados Unidos não foram atacados por causa do confronto/embate de civilizações. 

Os Estados Unidos foram atacados porque as virtudes que esposamos são mentira. Fomos atacados por causa de nossa hipocrisia. Fomos atacados por causa das campanhas de matança industrial que são nossa maneira principal de falar com o resto do planeta. Robert McNamara, Secretário de Defesa no verão de 1965, chamava as incursões de bombardeio, que por fim acabaram matando centenas de milhares de civis ao norte de Saigon, de forma de comunicação com o governo comunista de Hanoi. 

As vidas de iraquianos, afegãos, sírios, líbios e iemenitas são tão preciosas quanto as vidas daqueles que foram mortos nas Twin Towers. Esse entendimento, porém, essa capacidade de ver o mundo como o mundo nos via, escapou aos estadunidenses que, recusando-se a reconhecer o sangue em suas próprias mãos, instantaneamente bifurcaram o mundo em o bem e o mal, nós e eles, os abençoados e os condenados à danação. O país partiu para beber grandes talagadas do elixir do nacionalismo, da intoxicante elevação de nós próprios à condição de povo nobre e injustamente atingido. O lado reverso do nacionalismo é sempre o racismo. E os venenos do racismo e do ódio infectaram a nação estadunidense arrastando-a para a maior trapalhada incompetente estratégica de sua história, da qual nunca mais se recuperará.

Não percebemos e continuamos a não perceber que somos a imagem no espelho daqueles que buscam nos destruir. Nós também matamos com fúria desconexa. Nas últimas duas décadas extinguimos as vidas de centenas de milhares de pessoas que nunca procuraram causar dano aos Estados Unidos ou estiveram envolvidas nos ataques em solo estadunidense. Nós também usamos a religião, em nosso caso a fé cristã, para organizar jihad ou cruzada. Nós também vamos à guerra para combater fantasmas criados por nós próprios.

Naquela manhã andei ao longo da West Side Highway(*) até a paisagem lunar na qual as Twin Towers se haviam transformado depois de seu colapso. Galgando os escombros, tossindo profusamente por causa dos gases tóxicos do amianto em processo de queima, combustível de jatos, chumbo, mercúrio, celulose e entulho de construção, vi os pequeninos pedaços de carne humana e partes de corpos que eram tudo o que havia restado das quase 3.000 vítimas das torres. Era óbvio que ninguém que estava nas torres ao elas desabarem sobreviveu.

(*) https://es.wikipedia.org/wiki/West_Side_Highway

A manipulação das imagens, contudo, já havia começado. As pencas de “jumpers,” pessoas que haviam saltado para a morte antes dos colapsos/dos desabamentos, foram censuradas das transmissões ao vivo. Tais pessoas pareciam esperar chegar sua vez. Amiúde caíam individualmente ou em pares, por vezes com paraquedas improvisados feitos de cortinas, por vezes reproduzindo os movimentos de nadadores. Atingiam velocidade de 150 milhas por hora durante os 10 segundos que transcorriam antes de chocarem-se contra o solo. Os corpos faziam barulho de baque repugnante quando do impacto. Todas as pessoas que viram aquilo acontecer falam daquele som. 

O suicídio em massa foi um dos eventos centrais do 11/9. Foi porém imediatamente expungido da consciência do público. Os jumpers não se encaixavam no mito que a nação exigia. A desesperança e o desespero também eram perturbadores demais. Expunham nossa pequenez e fragilidade. Mostravam haver níveis de sofrimento e medo que nos levavam a deliberadamente acolher a morte. Os “jumpers” nos lembravam que um dia ver-nos-emos diante de apenas uma escolha, a de como morreremos, não como viveremos. 

A história que estava sendo urdida a partir das cinzas das Twin Towers era uma história de resiliência, heroísmo, coragem e autossacrifício, não de suicídio coletivo. Em decorrência, o assasínio em massa e o suicídio em massa foram substituídos por encômio às virtudes e à bravura do espírito estadunidense. 

A nação, abastecida por essa narrativa, cedo repetiu mecanicamente os clichês acerca do terror. Tornamo-nos aquilo que abominávamos. As mortes do 11/9 foram usadas para justificar a invasão do Afeganistão, “Shock and Awe” [Choque e Perplexidade], targeted assassinations(*), tortura, colônias penais ao largo/no exterior, fuzilamento de famílias em barreiras de controle, ataques aéreos, ataques com drones, ataques de mísseis e matança de dezenas e logo centenas e então milhares e depois dezenas de milhares e finalmente centenas de milhares de pessoas inocentes. Os cadáveres se empilharam em Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia, Somália, Iêmen e Paquistão, justificados por nossos beatificados mortos. Vinte anos depois aqueles mortos nos assombram como o fantasma de Banquo. 

(*) https://es.wikipedia.org/wiki/Asesinato_selectivo

A intoxicação de violência, o antálgico da guerra, é um veneno. Condena o raciocínio crítico como sendo traição. Sua conclamação ao patriotismo é pouco mais do que autoadoração coletiva. Arroga-se poder análogo ao divino e licença para destruir, não apenas coisas, mas outros seres humanos. Mas a guerra diz respeito, em última análise, a traição, como a derrota no Afeganistão deixa claro. Traição dos jovens pelos velhos. Traição dos idealistas pelos cínicos. Traição dos soldados e marines por pessoas que tiram proveito/extorsionistas da guerra e políticos.

A guerra, como todos os ídolos, começa com demandar o sacrifício de outros, mas termina com a demanda de autossacrifício. Os gregos, como Sigmund Freud, percebiam que a guerra é a expressão purista do instinto de morte, o desejo de exterminar todos os sistemas de vida, inclusive, por fim, a nossa própria vida. Ares, o deus grego da guerra, estava frequentemente bêbado, era brigão, impetuoso, e amante da violência pela própria violência. Era odiado por quase todos os outros deuses, exceto o deus das profundezas/dos infernos, Hades, para quem ele fornecia fluxo contínuo de novas almas. A irmã de Ares, Eris, a deusa do caos e da contenda, espalhava boatos e ciúme/inveja para avivar as chamas da guerra.

A derrota no Afeganistão não forçou acerto de contas/colocar as coisas nos devidos lugares. A cobertura da mídia não reconhece a derrota, substituindo-a pela ideia absurda de que, ao retirarmo-nos, derrotamos a nós próprios. As agruras das mulheres sob o governo do Talibã e o esforço frenético das elites e daqueles que colaboraram com a revoada das forças estrangeiras de ocupação são miopemente usados para que sejam ignoradas duas décadas de terror não mitigado/incessante e morte que perpetramos contra o povo afegão.

Essa fragmentação moral, por meio da qual nos definimos a partir de atos de bondade tangencial e amiúde fictícia, é uma escotilha psicológica de escape. Permite-nos evitar olhar para o que somos e o que fizemos. Essa cegueira deliberada é o que o psiquiatra Robert Jay Lifton chama de “doubling,” a “divisão do eu em dois todos funcionais, de tal maneira que o eu-parte atua como se fosse eu-total.” Esse doubling, observou Lifton, é amiúde feito “fora da awareness(*).” E é ingrediente essencial para que o mal seja efetivado. Se nos recusamos a ver-nos tais como somos, não conseguimos destruir a mentira perpetuada por nossa fragmentação moral, não há esperança de redenção. O mais grave perigo com que nos defrontamos é o perigo da alienação, não apenas do mundo em torno de nós, mas de nós próprios.

(*) awareness – Conhecimento ou percepção de situação ou fato. ‘Deixe que sua moralidade decorra de sua própria awareness, e não de seu condicionamento/da maneira pela qual você foi criado.’ Lexico

This article was first published on Scheerpost
The statements, views and opinions expressed in this column are solely those of the author and do not necessarily represent those of RT.

Items selected for translation do not necessarily represent the views of this blogger.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: